Raio-X de todos os gols de Pelé em sua carreira profissional

Edson Arantes do Nascimento, conhecido mundialmente como Pelé, representa o nome mais influente na história do futebol. Nascido em Três Corações, Brasil, em 23 de outubro de 1940, esse atacante revolucionou o esporte com seu talento excepcional, carisma natural e uma capacidade goleadora sem precedentes. Sua trajetória abrange três Copas do Mundo conquistadas com a Seleção Brasileira, mais de 1.200 gols ao longo da carreira e um legado que transcende gerações. A seguir, repassamos a vida do único jogador tricampeão mundial da história.

Origens e família de Pelé

Pelé jogando pelo Santos
Créditos: Imago

Pelé nasceu no seio de uma família humilde do estado de Minas Gerais. Seu pai, João Ramos do Nascimento, apelidado de Dondinho, foi jogador profissional do Fluminense, embora sua carreira tenha sido interrompida por uma lesão no joelho. Sua mãe, Celeste Arantes, inicialmente desencorajou o filho de seguir os passos do pai devido às dificuldades econômicas que a família atravessava.

A infância de Edson transcorreu em Bauru, interior do estado de São Paulo, onde a pobreza marcou seus primeiros anos. Sem dinheiro para comprar uma bola, o pequeno improvisava com meias recheadas de papel ou toranjas. Trabalhou engraxando sapatos para ajudar a economia familiar enquanto sonhava em se tornar jogador profissional.

O apelido “Pelé” surgiu na escola primária. Segundo o próprio jogador, seus colegas começaram a chamá-lo assim por sua má pronúncia do nome Bilé, goleiro do Vasco da Gama que era seu ídolo de infância. Curiosamente, Edson detestava esse apelido em seus primeiros anos, embora acabasse se tornando sinônimo de grandeza futebolística.

Os inícios de Pelé no futebol profissional

O talento de Pelé chamou a atenção do ex-jogador Waldemar de Brito quando ele tinha apenas 11 anos. De Brito, que havia integrado a Seleção Brasileira na Copa de 1934, tornou-se seu mentor e técnico nas divisões juvenis do Bauru Atlético Clube. Sob sua tutela, o jovem Edson ganhou dois campeonatos paulistas juvenis.

Em 1956, De Brito levou Pelé ao Santos FC com uma frase que ficaria gravada na história: “Este menino será o melhor jogador de futebol do mundo”. Com apenas 15 anos, assinou seu primeiro contrato profissional com o clube paulista. Sua estreia oficial aconteceu em 7 de setembro de 1956, em um amistoso contra o Corinthians de Santo André, onde marcou um gol.

A adaptação ao profissionalismo foi vertiginosa. Em sua primeira temporada completa com o Santos, Pelé consagrou-se como artilheiro do Campeonato Paulista com 17 gols. O futebol de salão praticado durante sua adolescência lhe havia dado reflexos excepcionais, visão de jogo e uma capacidade de reação que o diferenciavam de seus contemporâneos.

A estreia com a Seleção Brasileira

Pelé jogando pelo Brasil em 1958
Créditos: Imago

Com 16 anos recém-completados, Pelé recebeu sua primeira convocação para a seleção principal do Brasil. Em 7 de julho de 1957, estreou no mítico estádio Maracanã contra a Argentina pela Copa Roca. Entrou no segundo tempo como reserva e marcou um gol, embora o Brasil tenha perdido por 2 a 1. Essa anotação o tornou o goleador mais jovem na história da Canarinha.

O técnico Vicente Feola observou naquele jovem de compleição magra um potencial ilimitado. Sua velocidade, drible e finalização com ambas as pernas o distinguiam dos demais. A decisão de incluí-lo na lista para a Copa da Suécia de 1958 gerou debate, mas Feola confiou em seu instinto.

A Copa da Suécia 1958: nasce uma lenda

Pelé chegou à Suécia com uma lesão no joelho que o afastou das primeiras partidas. O Brasil estreou goleando a Áustria por 3 a 0 e empatou sem gols com a Inglaterra, tudo sem sua jovem promessa. Finalmente, contra a União Soviética, o técnico decidiu dar-lhe minutos, e ele deu assistência para o gol de Vavá.

Nas quartas de final contra o País de Gales, Pelé marcou seu primeiro gol em Copas do Mundo, o único da partida. Tinha 17 anos e 239 dias. A semifinal contra a França exibiu sua genialidade absoluta: marcou três gols na vitória por 5 a 2, deixando atônito o goleiro Claude Abbes, que declarou: “Prefiro jogar contra dez alemães do que contra um brasileiro”.

A final colocou o Brasil contra a Suécia, o país anfitrião. Aos quatro minutos, Nils Liedholm abriu o placar para os donos da casa, mas o Brasil não se intimidou. Vavá empatou e colocou os sul-americanos em vantagem. No segundo tempo, Pelé executou uma jogada que permanece na memória coletiva do futebol: recebeu na área, elevou a bola sobre um defensor com um chapéu perfeito e finalizou sem deixá-la cair. O Brasil goleou por 5 a 2, com dois gols do jovem de 17 anos, e conquistou sua primeira Copa do Mundo.

Consolidação com o Santos FC

O retorno da Suécia transformou Pelé em herói nacional. Com o Santos, iniciou uma era dourada que o levaria a ganhar títulos de forma consecutiva. Em 1958, conquistou o Campeonato Paulista com 58 gols, recorde que ainda se mantém vigente. Foi artilheiro desse torneio durante onze temporadas, nove delas consecutivas.

Os clubes europeus mais poderosos tentaram contratá-lo sem sucesso. A Inter de Milão chegou a obter um contrato assinado em 1958, mas a pressão dos torcedores brasileiros obrigou a anular a operação. Em 1961, o presidente Jânio Quadros declarou Pelé “patrimônio nacional” para impedir legalmente sua transferência para o exterior.

Entre 1956 e 1974, Pelé disputou 659 partidas oficiais pelo Santos e marcou 643 gols. O clube paulista se transformou em um dos melhores do mundo durante essa época, realizando excursões internacionais que o colocaram frente aos grandes da Europa. Nesses encontros, o brasileiro deixava atuações memoráveis que cimentavam sua lenda.

As Copas Libertadores e a glória continental

Em 1962, o Santos participou pela primeira vez da Copa Libertadores e a conquistou de forma contundente. Na final contra o Peñarol do Uruguai, Pelé marcou dois gols na partida decisiva para entregar ao clube seu primeiro título continental. Nesse mesmo ano, a equipe brasileira enfrentou o Benfica de Eusébio pela Copa Intercontinental.

A partida de volta em Lisboa ficou gravada na história. Pelé fez um hat-trick na goleada de 5 a 2 que coroou o Santos como campeão mundial de clubes. O goleiro português Costa Pereira declarou após o jogo: “Cheguei esperando deter um grande homem, mas saí convencido de que tinha sido vencido por alguém que não nasceu no mesmo planeta que o resto de nós”.

Em 1963, o Santos repetiu a façanha. Conquistou novamente a Libertadores após superar o Boca Juniors na final, com uma vitória histórica na Bombonera. A Copa Intercontinental também ficou nas vitrines brasileiras depois de vencer o Milan italiano. Pelé terminou essa campanha como segundo maior artilheiro do torneio continental.

Chile 1962: bicampeão entre lesões

O Brasil chegou ao Chile como favorito para defender seu título. Pelé, já considerado o melhor do mundo, brilhou na estreia contra o México com um gol e várias jogadas de fantasia. Porém, na segunda partida contra a Tchecoslováquia, sofreu uma lesão muscular que o afastou do resto do torneio.

A ausência de Pelé permitiu o surgimento de Garrincha como figura da equipe. O Brasil sagrou-se bicampeão mundial sem que sua máxima estrela pudesse disputar as fases decisivas. Pelé jogou apenas duas partidas naquela Copa, mas sua presença na concentração e sua contribuição na preparação foram fundamentais para o grupo.

Inglaterra 1966: a Copa das pancadas

A terceira Copa de Pelé ficou marcada pela violência. Os adversários haviam encontrado um método para neutralizá-lo: golpeá-lo sem piedade. Na partida contra a Bulgária recebeu faltas duríssimas, e contra Portugal a marcação brutal de Morais o tirou do resto do torneio com uma lesão grave.

O Brasil foi eliminado na primeira fase pela primeira vez desde 1934. Pelé, frustrado pelo tratamento recebido e pela falta de proteção arbitral, declarou publicamente que não voltaria a jogar uma Copa. A promessa não se cumpriu, mas o sabor amargo da Inglaterra demorou a se dissipar.

México 1970: a consagração definitiva

Convencido pela nova comissão técnica, Pelé aceitou disputar sua quarta e última Copa do Mundo. O Brasil montou um time de sonho com Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivelino e Carlos Alberto Torres. A preparação física melhorada e um regulamento mais protetor aos jogadores habilidosos pressagiavam um torneio diferente.

Desde a estreia, o Brasil exibiu um futebol de fantasia. Goleou a Tchecoslováquia por 4 a 1 com um gol espetacular de Pelé, que tentou marcar do meio de campo com um chute que raspou o travessão. Contra a Inglaterra, na partida mais esperada da fase de grupos, protagonizou um duelo memorável com o goleiro Gordon Banks, cuja defesa a uma cabeçada de Pelé é considerada uma das melhores da história.

A final contra a Itália no Estádio Azteca coroou o Brasil como tricampeão. Pelé abriu o placar de cabeça e deu assistência para Carlos Alberto no último gol, uma jogada coletiva perfeita que simbolizou a essência do futebol brasileiro. Com essa vitória, a Canarinha ficou em definitivo com a Taça Jules Rimet, e Pelé se tornou o único jogador a ganhar três Copas do Mundo.

O gol número 1.000

Em 19 de novembro de 1969, o Maracanã foi cenário de um marco histórico. O Santos enfrentava o Vasco da Gama quando o árbitro marcou um pênalti a favor da equipe paulista. Pelé pegou a bola consciente de que aquele chute poderia se tornar seu gol número 1.000 da carreira.

Diante de 65.157 espectadores, executou a cobrança com sua habitual precisão. O estádio explodiu em comemoração enquanto Pelé corria em direção às arquibancadas com a bola nas mãos. Os companheiros o carregaram nos ombros e a transmissão televisiva interrompeu a programação habitual para cobrir o momento. Esse gol selou sua condição de maior artilheiro da história do futebol até então.

Os últimos anos no Santos

Depois da Copa do México, Pelé continuou sua carreira no Santos com menor intensidade. Os problemas físicos começaram a se acumular e seu ritmo de gols diminuiu. Em 1971, disputou sua última partida pela Seleção Brasileira, encerrando um ciclo de 14 anos e 77 gols em 92 jogos internacionais.

O Santos da década de 1970 já não dominava o futebol sul-americano como antes. No entanto, Pelé seguia sendo a principal atração em cada estádio que visitava. Em 1974, com 33 anos, anunciou sua aposentadoria do futebol brasileiro depois de 18 temporadas ininterruptas no mesmo clube.

A passagem pelo New York Cosmos

Em 1975, após oito meses afastado dos gramados, Pelé surpreendeu o mundo ao assinar com o New York Cosmos da NASL americana. O contrato de 4,5 milhões de dólares o tornou o atleta mais bem pago do planeta. O empresário Clive Toye o convenceu com uma frase certeira: “Se você for para a Europa, só poderá ganhar um campeonato. Se vier para cá, poderá ganhar um país”.

Sua chegada transformou o futebol nos Estados Unidos. A estreia aconteceu em 15 de junho de 1975 contra o Dallas Tornado, com gol e assistência incluídos em um empate de 2 a 2. As arquibancadas que antes reuniam 8.000 espectadores começaram a se encher com mais de 40.000 torcedores. Figuras como Franz Beckenbauer, Carlos Alberto e Johan Cruyff seguiram seus passos rumo à liga norte-americana.

Em 1977, o Cosmos conquistou o campeonato da NASL com Pelé como figura central. Durante três temporadas, disputou 64 partidas oficiais e marcou 37 gols. Sua influência excedeu os números: milhões de crianças americanas começaram a praticar futebol inspiradas pelo brasileiro.

A despedida do futebol profissional

Em 1º de outubro de 1977, o Giants Stadium de Nova Jersey abrigou a partida de despedida de Pelé. O jogo colocou frente a frente Cosmos e Santos, seus dois únicos clubes profissionais. O brasileiro jogou o primeiro tempo com a camisa da equipe americana e o segundo com a do clube paulista.

Diante de 77.000 espectadores, entre os quais estavam Muhammad Ali e Bobby Moore, Pelé marcou um gol de falta para o Cosmos no que seria sua última anotação. Ao finalizar a partida, pegou o microfone e conduziu o público em um cântico de “Love, love, love” que ficou gravado na memória coletiva. A chuva que caiu sobre o estádio inspirou uma manchete na imprensa brasileira: “Até o céu chorou”.

Vida após o futebol

Após pendurar as chuteiras, Pelé se tornou embaixador global do futebol. Trabalhou com a FIFA, a ONU e diversas organizações internacionais promovendo o esporte como ferramenta de inclusão social. Em 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso o nomeou Ministro dos Esportes do Brasil, cargo que ocupou até 1998.

Desse posto, impulsionou a chamada “Lei Pelé”, que modificou a legislação brasileira sobre contratos esportivos e beneficiou os direitos dos jogadores frente aos clubes. Também participou de campanhas contra a pobreza, a favor da educação e em defesa dos direitos das crianças.

No âmbito artístico, Pelé incursionou no cinema e na música. Protagonizou o filme “Fuga para a Vitória” ao lado de Sylvester Stallone e Michael Caine em 1981. Compôs várias peças musicais, incluindo a trilha sonora do documentário “Pelé” dirigido por François Reichenbach em 1977.

Reconhecimentos e prêmios

A FIFA o nomeou Jogador do Século XX junto com Diego Maradona no ano 2000. O Comitê Olímpico Internacional o distinguiu como Atleta do Século em 1999. A agência Reuters concedeu o mesmo reconhecimento naquele ano após uma votação entre jornalistas esportivos de todo o mundo.

Em termos de clubes, seu currículo inclui 10 Campeonatos Paulistas, 6 Campeonatos Brasileiros, 2 Copas Libertadores, 2 Copas Intercontinentais e 1 Supercopa de Campeões Intercontinentais pelo Santos. Pelo Cosmos, somou 1 título da NASL. No total, conquistou 29 troféus ao longo de sua carreira profissional.

Seus números oficiais registram 757 gols em partidas competitivas segundo a FIFA. Se forem incluídos jogos amistosos e de exibição, a cifra sobe para 1.283 gols em 1.363 partidas, recorde reconhecido pelo Livro Guinness. Participou de quatro Copas do Mundo e marcou 12 gols nessa competição.

A morte de Pelé e seu legado eterno

Em setembro de 2021, foi detectado em Pelé um tumor cancerígeno no cólon. Ele foi submetido a uma intervenção cirúrgica e iniciou um tratamento de quimioterapia que deteriorou progressivamente sua saúde. Durante os meses seguintes, as internações se tornaram frequentes.

Em 29 de novembro de 2022, deu entrada no Hospital Albert Einstein de São Paulo por uma infecção respiratória. Sua família se reuniu para acompanhá-lo durante as festas de fim de ano. Às 15h27 do dia 29 de dezembro de 2022, o hospital confirmou seu falecimento por falência múltipla de órgãos decorrente do câncer de cólon. Tinha 82 anos.

O Brasil decretou três dias de luto nacional. O velório foi realizado no estádio Vila Belmiro, do Santos, onde milhares de pessoas desfilaram para despedi-lo. Figuras do futebol mundial, de Lionel Messi a Cristiano Ronaldo, expressaram seu pesar e reconheceram a influência de Pelé em suas carreiras.

O impacto de Pelé transcende os títulos e os gols. Foi o primeiro jogador a transformar o esporte em um fenômeno global de massas. Abriu as portas para que os jogadores latino-americanos fossem valorizados em todo o mundo. Demonstrou que o futebol podia ser arte, espetáculo e ferramenta de transformação social. Seu nome permanece como sinônimo de excelência esportiva, e seu legado continua inspirando milhões de pessoas em cada canto do planeta.