Os 10 clubes mais endividados do futebol brasileiro
O futebol brasileiro deve, coletivamente, quase R$ 10 bilhões. Não é metáfora: somando os balanços oficiais de 2024 dos dez clubes mais endividados do país, o número chega a R$ 9,8 bilhões. A maioria deles vai ter que prestar contas muito em breve – a CBF apresentou em novembro de 2025 o Sistema de Sustentabilidade Financeira, em vigor desde janeiro de 2026, e a primeira janela de fiscalização fecha no dia 31 de março.
Os dados abaixo são do levantamento da Sports Value com base nos balanços oficiais entregados em 2025, referentes à temporada de 2024. Não são estimativas. São os números que os próprios clubes assinaram.

Indice
- 1 1º – Corinthians: R$ 1,9 bilhão
- 2 2º – Atlético-MG: R$ 1,4 bilhão
- 3 3º – Cruzeiro: R$ 981 milhões
- 4 4º – Vasco: R$ 928 milhões
- 5 5º – São Paulo: R$ 853 milhões
- 6 6º – Internacional: R$ 835 milhões
- 7 7º – Palmeiras: R$ 825 milhões, em queda
- 8 8º – Bahia: R$ 821 milhões (+94%)
- 9 9º – Santos: R$ 645 milhões
- 10 10º – Fluminense: R$ 633 milhões
- 11 Fair-play financeiro da CBF: o que muda a partir de 2026
1º – Corinthians: R$ 1,9 bilhão
Nenhum clube do Brasil deve mais do que o Timão. São R$ 1,9 bilhão registrados no balanço de 2024, considerando os valores da Neo Química Arena. A dívida era de R$ 1,6 bilhão em 2023 – alta de 19% em um único ano. O Corinthians terminou a temporada de 2024 brigando contra o rebaixamento e começou 2025 ainda carregando esse peso. A arena, que era para ser solução financeira, virou o maior componente da dívida.

2º – Atlético-MG: R$ 1,4 bilhão
O Galo ganhou o Brasileirão e a Copa do Brasil em 2021. Contratou Hulk, Eduardo Vargas e montou um dos melhores elencos da história recente do clube. A conta chegou: R$ 1,4 bilhão em dívidas, 3% a mais do que os R$ 1,3 bilhão de 2023. O crescimento menor que o dos demais é um sinal positivo – sugere controle, ainda que tardio -, mas o volume total é o segundo maior do país. Gastar para ganhar tem um preço, e o Atlético sabe muito bem qual é.
3º – Cruzeiro: R$ 981 milhões
O número que mais assusta neste ranking não é o do Corinthians. É o crescimento do Cruzeiro: +66% em relação a 2023, quando a dívida era de R$ 592,4 milhões. Em um ano, o clube acrescentou quase R$ 390 milhões ao buraco. A Raposa está sob controle da SAF de Pedro Lourenço desde 2022, e parte do crescimento da dívida reflete os investimentos do novo projeto. Ainda assim, dobrar a dívida em dois anos é um sinal de alerta que não dá para ignorar.
4º – Vasco: R$ 928 milhões
O Vasco também passou por mudança de gestão com a chegada da 777 Partners – e depois a saída dela. O resultado financeiro ficou: R$ 928,5 milhões em dívidas, alta de 24% em relação aos R$ 747,6 milhões de 2023. Quarto lugar numa lista que ninguém quer liderar, o clube carioca começa a enfrentar instabilidade na gestão num momento em que precisava justamente do contrário.

5º – São Paulo: R$ 853 milhões
O Tricolor registrou R$ 852,9 milhões em dívidas – 28% a mais do que os R$ 666,7 milhões de 2023. O crescimento é expressivo e aconteceu numa temporada em que o clube chegou às quartas de final da Copa do Brasil. Gastar para competir tem lógica, mas 28% de incremento anual não é sustentável indefinidamente. O prazo de graça da CBF termina em 2027; a partir de 2028, vêm as punições de verdade.
6º – Internacional: R$ 835 milhões
O Inter aparece em sexto com R$ 834,8 milhões, alta de 17% sobre os R$ 714,9 milhões de 2023. O dado inclui a dívida do Beira-Rio, que tem perfil semelhante à Neo Química Arena do Corinthians. O clube gaúcho viveu uma temporada marcada pela enchente histórica que afetou o Rio Grande do Sul, o que torna ainda mais complexo avaliar o peso real das dívidas operacionais.
7º – Palmeiras: R$ 825 milhões, em queda
O único clube da lista que reduziu sua dívida. Eram R$ 942,6 milhões em 2023; em 2024, caíram para R$ 825,3 milhões – redução de 12%. O Palmeiras inclui no cálculo a dívida do Allianz Parque e ainda assim conseguiu diminuir o passivo. É o contraponto direto ao restante da lista: prova que gestão consistente funciona mesmo em volumes altos. Não por acaso, o clube venceu o Brasileirão com folga em 2023 e segue como o clube mais competitivo do ciclo.
8º – Bahia: R$ 821 milhões (+94%)
O crescimento mais brutal de toda a lista. O Bahia saiu de R$ 423,9 milhões em 2023 para R$ 821 milhões em 2024 – aumento de 94% em um ano. Quase dobrou. Parte deste salto reflete o novo modelo sob a SAF do Grupo City, que assumiu dívidas e passou a registrá-las no balanço. Mas o número bruto é impactante de qualquer forma e coloca o clube baiano num patamar de endividamento que vai exigir atenção redobrada nas próximas janelas de fiscalização da CBF.
9º – Santos: R$ 645 milhões
O Santos deve R$ 645,2 milhões, alta de 7% sobre os R$ 605,8 milhões de 2023. O crescimento é menor que o da maioria, mas o contexto é delicado: o clube passou por rebaixamento para a Série B em 2023, garantiu o acesso em 2024 e apostou no retorno de Neymar para recuperar receitas e visibilidade. O jogador mais caro da história do futebol brasileiro voltando ao clube que o revelou é uma aposta de alto risco, e o balanço vai mostrar se funcionou.
10º – Fluminense: R$ 633 milhões
Fecha a lista o Fluminense, com R$ 632,8 milhões em dívidas – 6% a mais que os R$ 597,3 milhões de 2023. O Flu venceu a Libertadores em 2023, com toda a estrutura de custos que isso implica. A dívida cresceu pouco em proporção; o problema é que o clube não tem o mesmo orçamento dos rivais de São Paulo ou Minas Gerais para absorver esses valores com tranquilidade.
Fair-play financeiro da CBF: o que muda a partir de 2026
A CBF apresentou o Sistema de Sustentabilidade Financeira em novembro de 2025. As regras valem para Série A e B desde janeiro de 2026, com três janelas de fiscalização por temporada: 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro.
As principais regras: os clubes não podem gastar mais de 70% das receitas com elenco (salários e direitos de imagem). A dívida líquida de curto prazo precisa ficar abaixo de 45% das receitas relevantes. Quem for considerado insolvente fica limitado em contratações e gastos salariais.
As punições vão de multa e transfer ban à dedução de pontos e rebaixamento – passando por retenção de receitas e cassação de licença. O detalhe que alivia os clubes por enquanto: os resultados de 2026 e 2027 resultam apenas em advertências. As punições efetivas só entram em vigor a partir de 2028. Dois anos de prazo. Para alguns clubes desta lista, é tempo suficiente para reorganizar as contas. Para outros, talvez não.
Os balanços de 2025 – referentes à temporada atual – devem ser publicados até 30 de abril de 2026. É quando o cenário vai ficar mais claro. Especialmente para os clubes que cresceram mais de 20% no passivo em 2024 e seguiram contratando em 2025.
Nove dos dez maiores devedores do futebol brasileiro aumentaram suas dívidas no último ano. Só o Palmeiras foi na direção contrária. O novo regulamento da CBF pode até forçar uma virada, mas, por enquanto, o padrão do futebol brasileiro é claro: gasta-se mais do que se arrecada, e a conta vai crescendo.

Júlio César Cardoso é brasileiro e reside em Florianópolis. Estudou ciências econômicas na Universidade Federal de Santa Catarina. Atua no ramo de jornalismo esportivo com foco em estatísticas desde 2012, tendo sido o criador do site Futdados.com. Desde 2020, teve passagens por Premier League Brasil, Trivela, Quinto Quarto, Esportelândia entre 2020 e 2024. Colaborou para diversas matérias jornalísticas dos sites GloboEsporte.com, UOL.com.br, ESPN.com.br, Jornal Extra e outros.




